Notas da madrugada
Não há noites sem música. Notas cortam a madrugada, interrompendo o repouso, a compreensão dos ouvidos fatigados. Evitando a paz, a calmaria, o silêncio. O silêncio é o oposto da música, seu contrário, e também seu substrato. Os sons pausados são
inimigo da música.
O giro terrestre, desordenado, sideral, cósmico, é música. O canto dos morcegos, o latido caótico do cão aqui do vizinho, pernilongos zunindo insuportavelmente, silenciados pelas turbinas inescrupulosas da colosso voador. Os céus estão com medo. As corujas entoam profecias. O sono não se equ Homens, jovens, trabalhadores, rasgam a quietude da escuridão, da noite, com a estridência insuportável do motor à gasolina. Paz, calmaria, silêncio. Tudo o que a música não quer.
“Barulho não é música”, dirão os puristas, os sommeliers musicais. A música é a arte das musas, da beleza, da perfeição. Mas ainda que os julgadores emitam seus ruidosos juízos a respeito da música de outrem, convém lembra que a música, assim como a noite, é abundante
Assim como a noite, a música tem muitas cores.
As notas musicais são como cores. Leves, graves, intensas, sombrias. Há uma ciência da música. Por que determinados sons casam bem com outros? Por que determinados sons não casam?
A arte emana afetos. A música é como poesia sonora, despida de conceito, frequências, ondas, a nudez do atrito. Uma nota sonora é o resultado de um atrito. Música é atrito. A baqueta contra a caixa, contra os pratos. O pé ritmado no chimbal. Percussão é atrito. O ritmo que brota daí, um beat, uma frequência perfeita: atritos. O dedo do violonista ataca as cordas. Essas, indefesas, molestadas, tiradas de sua zona de conforto, de sua inércia, emitem ondas sonoras. O som é o movimento da matéria em atrito, afinado ou não, em sintonia ou fora do tom, a música é o resultado do atrito.
sons. Afinados, ou não, em sintonia, no tom, fora dele. Os sons são produto do atrito da matéria.
Atritos aleatórios? Tradicionalmente, culturalmente, será?, nossos ouvidos estão acostumados com atritos harmonizados, pois foram esses os modelos de atrito ensinados como corretos, belos, padronizados. É por isso que a experiência musical se reduz ao espetáculo pop, rápido, fácil, consumível. A música de massa só agrega valor à música enquanto é música de massa. Passados os anos, sucessos do passado agradam corações nostálgicos, mas a qualidade musical, ou a fama dela decorrente ou sonhada, não é nada mais que fantasia dos emocionados pela indústria.
E aí, a música corre nas veias, nos veios que cortam a terra, no canto dos pássaros, no encanto das árvores, na repetição ensurdecedora das máquinas, na sedução dos afetos. Há música por todos os cantos, na melodia dos ventos uivantes, do funk dos morros, na voz dos crentes, na cobiça dos espertos. O batuque não é menos música que o piano. A cultura não deve ser hierarquizada, pois corre o risco de simplesmente de acabar.
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